Nutrição para idosos

Gastrostomia: como fica a alimentação em casa

O que é a gastrostomia, como organizar a dieta por sonda em casa, os cuidados com a pele ao redor e os sinais que pedem atendimento rápido.

Andressa Lopes LealNutricionista · CRN-2 13418D · 6 min de leitura Revisado por Andressa Lopes Leal em 28 de outubro de 2026

Voltar para casa com uma gastrostomia costuma trazer alívio e medo ao mesmo tempo. Com orientação, a rotina fica mais leve do que parece no começo. Em resumo: siga a prescrição da equipe, alimente a pessoa sentada ou com a cabeceira elevada, lave a sonda com água como foi orientado, mantenha a pele ao redor limpa e seca e conheça os sinais que pedem atendimento rápido.

O que é a gastrostomia (GTT) e quando ela é indicada

A gastrostomia (GTT) é uma pequena abertura na barriga que liga a pele ao estômago. Por ela passa uma sonda para a dieta, a água e, quando indicado, os remédios. A abertura na pele se chama estoma. Quando é feita por endoscopia, você pode ver a sigla PEG ou GEP.

Ela é indicada quando a pessoa não consegue comer o suficiente pela boca, mas o intestino funciona, como quando engolir ficou inseguro depois de um AVC ou em algumas doenças neurológicas. Para períodos curtos, costuma-se usar a sonda pelo nariz. Quando a necessidade deve passar de cerca de 4 a 6 semanas, a diretriz europeia de nutrição enteral domiciliar (ESPEN) e o Ministério da Saúde orientam preferir a gastrostomia, que incomoda menos e sai do lugar com menos frequência. Se a pessoa usa sonda pelo nariz, veja o texto sobre dieta por sonda em casa.

Dieta por sonda na gastrostomia: como fica a rotina

O tipo de dieta, a quantidade, os horários e a forma de dar (com seringa, em frasco gota a gota ou com bomba) são definidos pela equipe para cada pessoa. Alguns cuidados valem para quase todos:

  • Mãos e utensílios limpos. Lave bem as mãos antes de preparar e de dar a dieta. Frascos, equipos e seringas precisam ficar sem resto de dieta.
  • Posição. Ofereça a dieta com a pessoa sentada ou com a cabeceira elevada (o Ministério da Saúde fala em 45 graus), nunca deitada reta, e mantenha a posição por um tempo depois, como a equipe orientar. Isso diminui o risco de refluxo e de a dieta ir para o pulmão.
  • Água para lavar a sonda. A diretriz europeia recomenda lavar a sonda com água antes e depois da dieta, para não entupir. Use a quantidade e o tipo de água que a equipe indicou.
  • Remédios. Dê um de cada vez, sem misturar com a dieta nem com outros remédios, lavando a sonda antes, entre um e outro e depois. Antes de triturar um comprimido ou abrir uma cápsula, pergunte ao médico ou ao farmacêutico se pode.
  • Observe a reação. Enjoo, vômito, barriga estufada, diarreia ou intestino preso devem ser contados à equipe.

Para o quadro mais amplo da nutrição nessa fase da vida, veja o guia de alimentação do idoso.

GTT sonda: cuidados com a pele e com a sonda

Até o local cicatrizar, o que costuma levar cerca de uma semana, o estoma deve ser olhado todos os dias e mantido limpo e seco, do jeito que a equipe ensinou. Depois:

  • Limpe a pele ao redor com água e sabão neutro e seque bem, com delicadeza.
  • Com o local bem cicatrizado e a liberação da equipe, o banho de chuveiro é possível.
  • A plaquinha de fora não deve ficar apertada contra a pele nem frouxa demais. Prenda a sonda para que ela não fique sendo puxada.
  • Às vezes aparece uma "carninha" rosada ao redor do estoma, que sangra com facilidade. É comum e tem tratamento. Mostre à equipe.

Girar ou não girar a sonda?

Em muitas sondas, depois da cicatrização, a diretriz europeia orienta girar a sonda todos os dias e empurrá-la um pouco para dentro uma vez por semana. Isso evita que a parte de dentro fique presa na parede do estômago, uma complicação séria. Mas nem toda sonda pode ser girada: as que têm uma extensão até o intestino só devem ser movidas para dentro e para fora, e quando há pontos de fixação pode ser preciso esperar mais. Gire apenas se a equipe orientou e do jeito que mostraram.

Sinais de alerta: quando procurar atendimento

Avise a equipe ou procure atendimento se notar:

  • vermelhidão, inchaço ou endurecimento ao redor do estoma;
  • secreção com pus ou mau cheiro;
  • dor no local ou na barriga;
  • febre;
  • vazamento de dieta ou de líquido do estômago ao redor da sonda;
  • sangramento;
  • sonda difícil de mover, entupida ou que trava ao passar a dieta ou a água.

Procure o serviço no mesmo dia, o quanto antes, se:

  • a sonda saiu. O caminho na barriga pode começar a fechar, e a troca precisa ser rápida. Se a gastrostomia tem menos de quatro semanas, a diretriz trata a saída da sonda como emergência;
  • a pessoa tem tosse, falta de ar ou febre durante ou depois da dieta;
  • há vômitos que não param ou a barriga ficou dura e estufada.

Não tente recolocar a sonda por conta própria, a não ser que tenha sido treinado para isso.

Quem tem gastrostomia ainda pode comer pela boca?

Depende. A gastrostomia, por si só, não proíbe comer pela boca. Há quem receba tudo pela sonda porque engolir não é seguro, quem use a sonda para completar o que come e quem volte a comer pela boca aos poucos, conforme a doença de base permite.

Quem decide é a equipe, com a avaliação do fonoaudiólogo. Oferecer comida ou líquido sem essa liberação pode levar a engasgos e pneumonia. Se você percebe tosse, engasgo ou voz "molhada", leia sobre disfagia no idoso.

Mesmo sem comer pela boca, a higiene bucal diária continua necessária. Um estudo pequeno e preliminar sugeriu menos pneumonia em idosos alimentados por sonda que recebiam esse cuidado; a evidência ainda é limitada.

O lado emocional da família

Comer é afeto, encontro e prazer, e a gastrostomia mexe com todo mundo. O Ministério da Saúde lista entre as dificuldades possíveis da alimentação por sonda a ansiedade, a depressão, a falta de estímulo ao paladar, a monotonia e o isolamento. Algumas ideias, se fizerem sentido para vocês:

  • manter a pessoa à mesa com a família, se ela quiser;
  • explicar o que está sendo feito, mesmo quando a resposta é pouca;
  • dividir as tarefas, para o cuidado não pesar só em uma pessoa;
  • pedir à equipe indicação de apoio psicológico, para o paciente e para quem cuida.

Sentir cansaço, medo ou tristeza não quer dizer que você está cuidando mal. Se a rotina estiver pesada, um acompanhamento nutricional para idosos ajuda a organizar a alimentação dentro da realidade da casa.

A decisão pela gastrostomia é uma conversa com a equipe

É uma decisão médica e pessoal: a equipe avalia se a sonda tem chance real de ajudar, e a pessoa e a família trazem seus valores e desejos.

Na demência, as diretrizes têm uma posição própria. A diretriz europeia sobre nutrição na demência (ESPEN, 2024) pede que cada decisão seja individual, considerando a situação clínica, o prognóstico e as preferências da pessoa. Na demência leve ou moderada, a sonda pode ser usada por um tempo, quando a pessoa come muito pouco por um motivo que pode melhorar, como uma infecção. Já na demência avançada e na fase final da vida, a diretriz recomenda não iniciar a alimentação por sonda. Uma revisão Cochrane de 2021 não encontrou evidência de que a sonda prolongue a vida nessa fase e apontou risco de feridas de pressão. Os estudos são de qualidade limitada, e a diretriz admite raras exceções, sempre discutidas com cuidado.

Nesses casos, a alternativa costuma ser a alimentação de conforto: oferecer com calma o que a pessoa gosta, na quantidade que ela aceita. Não é desistir. É cuidar de outro jeito. A diretriz também incentiva que a pessoa registre seus desejos sobre o tema cedo, enquanto ainda pode decidir.

Quando procurar uma nutricionista

Quando a dieta por sonda gera dúvidas, a pessoa está perdendo peso ou o intestino não se acerta, a nutricionista ajuda a ajustar o plano junto com o médico, o fonoaudiólogo e a enfermagem. A Andressa trabalhou em UTI hospitalar e na área de nutrição enteral, e começa sempre escutando a família. O idoso sai da primeira consulta com um plano. Ela atende em consultório em Porto Alegre e online. Saiba mais na página de nutrição para idosos.

Andressa Lopes Leal
Quem escreveu

Andressa Lopes Leal

Nutricionista (CRN-2 13418D) com mais de 10 anos de experiência, do hospital e da UTI ao consultório. Pós-graduada em Nutrição no TEA, TDAH e Síndrome de Down. Atende em Porto Alegre e online.

Conheça a trajetória da Andressa →

Fontes

  1. Bischoff SC et al. Guidelines práticas da ESPEN: nutrição entérica domiciliária (versão em português, baseada na ESPEN guideline on home enteral nutrition, Clin Nutr 2020)
  2. Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Domiciliar, volume 3: Cuidados em Terapia Nutricional (2015)
  3. Volkert D et al. ESPEN guideline on nutrition and hydration in dementia: update 2024. Clin Nutr, 2024
  4. Davies N et al. Enteral tube feeding for people with severe dementia. Cochrane Database Syst Rev, 2021
  5. Maeda K, Akagi J. Oral care may reduce pneumonia in the tube-fed elderly: a preliminary study. Dysphagia, 2014

Conteúdo informativo. Não substitui a consulta individual com um profissional de saúde.